Pais, professores, coordenadores de Centro Espírita: os velhos culpados!

Recordo-me que na época em que dava aulas de Matemática, escutava de meus alunos: - Não gosto de Matemática. Eu respondia: - Meu filho, gostar ou não de uma coisa importa pouco, ou nem deveria importar, pois na vida a gente não faz tudo aquilo que gosta ou que quer. Aprenda isso para evitar frustrações adiante. Mas os alunos, implacáveis, prosseguiam: - Faça aula interessante então, professor... E, não obstante saber da importância de a aula ser interessante, colocava-me a pensar: - Meu Deus, não deveria a aula, por ela mesma, interessante? Pois bem, vamos à aula interessante. Mas em muitas ocasiões nem a tecnologia, piadas ou tampouco cambalhotas dadas em sala de aula faziam a mágica de vê-los prestar atenção. Nas sempre interessantes reuniões de pais, em que embora o nome continha mais professores do que pais, vinham em profusão os pedidos: - Faça aula interessante, professor!! Aula deve ser interessante para nossos filhos prestarem atenção! E o professor, no caso eu, “pagava o pato” sozinho. Mas este “pagar o pato” sozinho não fica apenas nas costas do professor. Isso ocorre em diversas situações, e posso dar aqui vários exemplos. Vejamos o caso dos pais. Afirma-se, com razão, que uma educação recheada de valores morais e exemplos influenciam e muito na criação dos filhos. Ninguém em sã consciência dirá o contrário. Todavia, informam os Espíritos que em muitos casos bons pais, conscientes de seu papel, podem receber no seio da família Espíritos maus, com inclinações perversas. E, não obstante o imenso esforço dos pais, esses filhos podem enveredar por caminhos complicados. Diz a sociedade sobre esses filhos: - Se tivessem tido boa educação familiar não se desvirtuariam. Isso é falta de educação. O Espiritismo não dá resposta tão simplista e, como sempre, vai além ao afirmar que os Espíritos, embora recebam influência dos pais, têm o livre arbítrio, portanto, escolhem os seus próprios caminhos que, em muitos casos, não combinam com os conselhos e exemplos ensinados pelos pais. Vários casos comprovam isso. Filhos de uma mesma família seguem caminhos opostos, um pende para o bem, o outro detona a si mesmo indo para o abismo do mal. Mesmos pais, mesmas diretrizes, contudo, escolhas com diferença de 180 graus. A sociedade deposita a “conta desse pato” nos pais. O Espiritismo mostra que não é bem assim, entretanto, repito que os Espíritos ensinam ser muito grande a influência que os pais exercem sobre os filhos, principalmente nos primeiros anos de vida. Tenho aqui um outro exemplo. Centros Espíritas vazios nos dias de estudo, carentes de voluntários, às moscas quando o assunto é arregaçar as mangas. As razões que justificam os pontos acima podem ir de A até Z, entretanto, costuma-se afirmar: - Falta de liderança. Coordenação equivocada, erros primários na condução dos trabalhos. Novamente alguém, no caso o dirigente ou coordenador, “pagando o pato” sozinho. O que quero dizer com essa prosa toda? Quero dizer que a responsabilidade pelo sucesso ou fracasso não é apenas daqueles que estão na testa ou na condução de alguma atividade. Está na hora de dividirmos as responsabilidades, os fracassos, as alegrias e tristezas das experiências no mundo, sem responsabilizar apenas A, B ou C. Penso que já se findou o momento de passar a mão pela cabeça de alunos, filhos, frequentadores de Centro Espírita e etc. O momento é de diálogo para o despertar de que todos são parte de um processo, e torna-se fundamental o envolvimento de todas as partes para que o “pato” fique mais leve de pagar. Enfim, é tempo de assumir responsabilidades e iniciar o processo de condução da própria existência. Sem essa de culpar pai pelo desvio no caminho ou professor por não ter estudado devidamente Matemática. É necessário assumir-se: - Não prestei atenção na aula. - Embora os conselhos de meus pais fui pelo caminho errado. - Os coordenadores do centro disponibilizaram muitas atividades, mas preferi ficar no sofá assistindo TV. Tudo tornar-se-á mais leve quando entendermos que somos, neste planeta, uma equipe, que divide responsabilidades, sucessos e, também, fracassos. Pensemos nisto.

Conviver com os diferentes é moleza...

Vivemos em uma época em que a aceitação pelo diferente é muito difundida. Campanhas contra o preconceito ganham espaço e com justiça tenta-se estabelecer a relação de igualdade entre os seres humanos. Se fizermos uma viagem que nem precisa ser muito longa, mas que nos desembarca no século XIX constataremos como as coisas no quesito igualdade avançaram. Poderia ficar aqui horas falando sobre a ditadura masculina, por exemplo, mas citarei apenas um caso. A mulher naquela época, século XIX, tinha de ser virgem, caso contrário era devolvida à família como uma mercadoria. Para constatar a virgindade olhava-se o lençol da noite nupcial, caso manchado de sangue, tudo tranqüilo e favorável, caso o sangue não viesse bem provável a moça não ser mais virgem e, portanto, desonrada, logo seria devolvida à família. As mães, preocupadas com o destino das filhas usavam esperta artimanha: faziam bexiga com tripa de boi, bem fina, enchiam com sangue de pombo e introduziam na vagina da moça. Quando o rapaz iniciasse o ato sexual a bexiga naturalmente estouraria e o sangue daria seu recado: ELA É VIRGEM! Pronto, tudo resolvido e o rapaz, orgulhoso, poderia mostrar a marca de sangue de sua agora esposa a dizer que ele havia sido, realmente, o primeiro homem. Santa bobagem! Mas essa prosa foi apenas para mostrar o quanto éramos intransigentes e ignorantes a levar uma vida repleta de preconceitos. Engraçado que no mesmo século XIX o Espiritismo mostrava que homens e mulheres são seres em evolução, e que o fato de estar homem ou mulher em nada aumentava ou diminuía os direitos e deveres, sendo, pois, igual para ambos. Demorou um pouco para que se começasse a assimilar, mesmo que timidamente, essa idéia de igualdade entre as partes. No início tudo dói, dó muito mudar, mas depois a gente acostuma. Percebe que não tem jeito, que a evolução é inexorável e não resta saída a não ser a de aceitar que o diferente também ocupe o seu espaço. Pois bem, como dizia antes, o diferente neste início de século XXI vem ganhando algum destaque. Mas não é bem do diferente que quero falar, porque com diferente é até moleza de lidar. Como assim???? Você indagará. Sim, é isso mesmo, moleza lidar com o diferente. O problema é compreender o semelhante. Os grandes entraves ocorrem não com os diferentes, mas, sim, com os semelhantes, que agem de forma semelhante. Por que brigas acontecem? Porque ninguém sabe ceder, um fala alto, o outro mais alto ainda, o primeiro revida e por ai vai... São iguais, ou melhor, semelhantes, embora com pontos de vista contrários, opostos, são iguais nas atitudes de incompreensão. E iguais na falta de educação vão, não raro, as vias de fato. Por isso que muitas amizades desfazem-se, muitas relações vão à pique, muitos amores naufragam... É que as pessoas são iguais, agem apaixonadamente para defender seu ponto de vista e, claro, local onde a paixão excede a coisa não fica boa... Dizem os Espíritos que a paixão deve ser dominada, pois se nos deixarmos dominar por ela causaremos prejuízos a nós e aos outros. Por isso que disse ser moleza entender e conviver com o diferente, por conta da paixão que deixamos nos dominar. Dois apaixonados não se beijam... Ops... dois bicudos não se beijam, não é mesmo? Então... Por isso que estar com o diferente é mais tranqüilo do que com o semelhante... Enquanto ele está calmo você fica nervoso... Quando ele se aborrece você entende... No dia em que ele quer falar você está disposto a ouvir e vice versa... O problema de nosso mundo não são os diferentes, mas os iguais, os semelhantes, os que se equivalem... Por isso que quando encontro alguém que é meu oposto suspiro aliviado! Ah, que bom, ela não é igual a mim... Entretanto, o progresso é lei da vida, dia chegará em que com os semelhantes ou não semelhantes usaremos sempre a educação e o respeito. Pensemos nisto.